De moto para o Atacama – 4º DIA

QUINTA-FEIRA, 19/10/2017

A previsão de ontem estava correta. Choveu muito de madrugada e amanheceu um pouco mais fresquinho do que ontem, felizmente! Aproveitamos e saímos antes de qualquer possibilidade de pegar chuva pelo caminho. Neste primeiro trecho tivemos que rodar 265 km pela RN16 para chegar ao acesso da RN9, que passa por Salta e San Salvador de Jujuy. Seguiríamos por mais 280 km e, em vez ir por Purmamarca, subiríamos um pouquinho mais a RN9 para ficar em Tilcara. Pesquisamos algumas hospedagens pela região e chegamos à conclusão de que Tilcara tinha mais variedade de hostels e preços mais acessíveis. Tomara que isso se confirme.

Conforme avançávamos na direção do pé da Cordilheira, já avistávamos as montanhas ao redor da província de Salta. O clima já começava a esfriar também, na medida em que adentrávamos na província, já começava a ficar um clima mais serrano. Passamos por outras barreiras policiais na estrada, mas desta vez tivemos sorte, nenhuma nos parou. Passamos por cidadezinhas bem pequenas na beira da estrada, muita sinalização, principalmente quando nos aproximamos de escolas.

Até aí, tudo bem? Tudo bem. Será? Veremos. Chegou um momento em que a RN9 começa a subir por aquelas montanhas, e, de repente, vem aquelas curvas bem acentuadas e o asfalto começa a estreitar. Veículos maiores precisam de uma pista e meia para vencer uma curva. Ônibus e caminhões deveriam ser proibidos ali. Mas não são, para o nosso azar. Quando estávamos próximos a virar uma curva acentuada, damos de cara com um caminhão e tivemos que, em uma fração de segundo, tomar decisões irreversíveis ali. Ou era dar de cara com o caminhão ou tirar a moto da frente e cair no penhasco. É engraçado como uma das maiores verdades deste mundo é que a prática leva à destreza (não somos adeptos da palavra “perfeição”, já existe pressão que chegue nesse mundo). Mas se não houvesse um golpe de sorte também, talvez não estivéssemos aqui hoje contando isso para vocês. Em um misto de destreza e sorte, conseguimos desviar do caminhão e vencer aquela curva apertadíssima e voltar para a nossa pista. Diminuímos a velocidade e olhamos para cima, seja para suspirarmos aliviados ou para agradecer por termos conseguido.

Outro cuidado que tivemos foi com alguns carros que estavam indo nesta mesma rota participando do Gran Turismo Atacama 2017… vocês, com certeza, sabem do que estamos falando. Infelizmente, episódios como estes acabaram causando um pequeno desgaste psicológico na experiência da viagem e, por mais que ela não tenha tirado o encanto do trajeto, nos aumentou a sensação de cansaço e chegou uma hora em que só queríamos chegar em Tilcara. Pois cada curva apertada era um frio na barriga. Mesmo assim, nos encorajamos a parar e tirar fotos, pois não podemos nos deixar afetar pelos contratempos da viagem, eles existirão sempre.

 

Finalmente nos aproximamos da cidade de Salta – a RN9 passa por ali, mas não chega a entrar – e, 90 km depois, no limite com a província de Jujuy. Ainda faltava uns 87 km para chegarmos em Tilcara, e, por termos escolhido pegar este caminho pela serra, acabamos demorando mais do que o planejado e, quando percebemos, foi ficando mais tarde e o sol começou a ficar mais fraco. Começou a bater um frio que não estávamos preparados. Estávamos ainda no clima do Chaco, sem forro na jaqueta e na calça, só com a segunda pele, a balaclava não dava conta do frio no pescoço. Mas o nosso senso de lucidez é fundamental, pensávamos que iríamos chegar logo, que tudo isso era parte da aventura e que o pior frio ainda estaria por vir, pois ainda nem tínhamos chegado no Paso de Jama. Passados uns 60 km, qual era a nossa alegria em avistar Purmamarca. A estética das cidadezinhas da província de Jujuy são bem particulares da cultura andina, as casas de barro, coloridas ou muitas vezes em tons de ocre. É uma paisagem totalmente diferente do que estamos acostumados, e por isso mesmo é fascinante.

A esta altura já estávamos tremendo de frio e cansados, quando finalmente chegamos na entrada da cidade de Tilcara. Havia entardecido, mas o dia ainda estava claro, então foi possível ver uma cidadezinha bem colorida e movimentada, com muitos turistas e cheia de estabelecimentos nas suas ruas estreitas. Foi fácil achar o Hostel Waira, onde ficaríamos. Felizmente eles tinham vaga para um quarto privativo (para casal) por 650 pesos, com café da manhã. Gostamos muito do hostel, este inclusive tinha banheiro no quarto, com chuveiro quente e calefação.

Saímos para jantar e encontramos um restaurante muito bom chamado La Cheba 1910. Lá eles serviam milanesa de lhama com batatas andinas e salada. Já que estávamos lá, tínhamos que experimentar, então pedimos apenas um prato (era bem servido) e, para acompanhar, uma cerveja artesanal local, a Quebrada escura, servida em canecas de barro.

 

Depois, saímos para conhecer um pouco a cidade, já que ficaríamos apenas uma noite. Tilcara é mesmo uma cidade interessante para se conhecer, foi uma ótima experiência, mesmo que rápida.

Ao voltarmos para o hostel, que ficava em uma subida, nos demos conta dos efeitos da altitude. Tilcara fica a 2.465 m acima do nível do mar, e percebemos que demos poucos passos naquela subida e nos bateu um cansaço e uma falta de ar, ao mesmo tempo em que o coração pareceu acelerar pelo esforço, foi como se tivéssemos subido muito rápido. Ainda não sabíamos de nada… rsrsrs. Enfim, fomos dormir, pois no outro dia seria a passagem pela fronteira no Paso de Jama. Continuamos no  próximo relato sobre a nossa saída das nossas queridas terras argentinas e da nossa chegada – finalmente – a San Pedro de Atacama. Boa noite e pé na estrada!

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